Carro do futuro desafia engenharia brasileira

Assim como ocorre na política brasileira, o tema que envolve a fonte de energia das próximas gerações de carros no país transformou-se numa discussão polarizada.

De um lado estão os que defendem carros elétricos e, do outro, os que apostam na sobrevida do motor a combustão mais limpo com a ajuda do etanol. O assunto é polêmico e abre espaço a diversos fóruns de debate. Mas a realidade brasileira facilmente se impõe quando um executivo que está à frente da revolução tecnológica em veículos na Europa fala. É como ouvir alguém que vem de outro mundo.

Jornalistas brasileiros conversaram, ontem, com Uwe Class, executivo que comanda a área de tecnologia da ZF, uma das empresas que mais tem se destacado no desenvolvimento de componentes necessários para a revolução tecnológica dos veículos.

Class, que ocupa o cargo de vice-presidente de sistemas avançados da companhia alemã, mostrou como os carros passaram a ser definidos por softwares e como a chegada das gigantes de tecnologia, como Apple e Google, influenciaram na criação de um novo modelo de negócios na indústria de veículos. “É uma mudança radical em relação ao que fizemos ao longo de décadas”, destacou.

Class, que estudou mecatrônica e se formou em engenharia de precisão, apresentou soluções como um computador de alta performance que deverá ser instalado nos carros autônomos, no futuro, com sensores que oferecem dados de medição por câmeras e radares.

Enquanto ele discorria sobre as expectativas do uso de inteligência artificial, de como poderemos manejar o veículo sem precisar estar dentro dele e de como as atualizações nos carros serão feitas pela nuvem, soluções bem menos ambiciosas, voltadas à realidade do Brasil, eram apresentadas, também à imprensa, pela brasileira AEA (Associação de Engenharia Automotiva).

Besaliel Botelho, presidente da AEA, falou sobre “as oportunidades” que o etanol confere ao Brasil para não apenas preservar a engenharia e a indústria nacional como também “influenciar” toda a América Latina e outros países emergentes de dimensões continentais, como a Índia. Para ele, é preciso buscar caminhos para que a indústria automobilística se mantenha relevante para a economia do país, “como foi feito nos últimos 60 anos”.

Defensores do etanol em motores a combustão ou híbridos — uma solução inteligente, como diz Botelho, para países sem boa infraestrutura de recarga de baterias — tem aliados fortes a seu lado — os trabalhadores.

O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Wagner Santana, diz estar convencido de que a opção por carros puramente elétricos resultará em demissões em massa no setor e condenará o Brasil a “mero importador de veículos”, como fazem Colômbia ou Chile, principalmente.

Esses mercados são, obviamente, muito menores, não têm um parque industrial instalado como o Brasil e nem tampouco equipes de engenharia acostumadas a adaptar produtos aos altos e baixos da economia e ao vaivém de benefícios fiscais que, ao longo dos anos, moldaram não apenas a matriz energética dos veículos como a potência de seus motores.

Fonte: Valor Econômico